segunda-feira, 9 de maio de 2011

Praça Clarice Lispector

Praça com manhã agitada...
O senhor grisalho que vende flores está fazendo ótimos negócios. Já o vi despachando vários clientes. Sinto, daqui de onde estou sentado, o aroma agradável de suas flores naturais. Elas são coloridas e de diversas formas.
Um ceguinho hoje resolveu parar na praça, viola na mão, Mílton Nascimento na voz, sentimentos puros no coração. Os olhos por trás dos óculos pretos não conseguem enxergar o dia lindo. "Todo artista tem que ir aonde o povo está", canta o cego sem importar-se com o tilintar das moedas jogadas pelos traseuntes. Até o senhor das flores veio lhe deixar algum dinheiro.
Mais à frente do cego, um grupo de senhores joga dominó num mesa de pedra. Noutro canto há o jogo de gamão bem disputados por mais dois senhores. As damas são mexidas mais à direita, por dois taxistas observados por alguns companheiros.
Alguns pombos voam e voltam. Uns vão, outros vêm
...

quinta-feira, 5 de maio de 2011

As flores que colhíamos juntos




As flores que colhíamos juntos

Você não pode esquecer
Das flores que colhemos juntos
Naquele campo vasto
Com muitos pássaros
E um vento frio
Soprando sobre nós
Quando ainda éramos tão jovens.

Você não deve esquecer
Das flores do seu vestido
Estampas coloridas
Como as flores no campo
Que colhíamos juntos
Com aquele vento frio
Soprando sobre nós
Levando nossa inocência.

Era como num sonho
Quando colhíamos flores
E você lutava contra o vento
Para não levantar o seu vestido
Estampado com flores
As mesmas flores do campo
Que colhíamos juntos

Não era um sonho
Eram verdadeiras as flores
Você é a minha verdade
Desde que éramos crianças
E brincávamos de colher flores
Num campo vasto
Com pássaros e um vento frio
Tentando levantar o seu vestido
Estampado com as mesmas flores
Que colhíamos juntos.

Quando éramos inocentes
Ríamos juntos...

sábado, 29 de maio de 2010

Os dias às vezes mudam e são como se fossem de outra estação.

Acabei de falar isso para uma grande amiga, pessoa que trago bem próxima do meu coração. Pedi a essa figura que, se por acaso, a vida me presentear com um oásis verdejante lindo, produtivo e de água límpida, ela esteja sempre me lembrando que "os dias às vezes mudam e são como se fossem de outra estação".
Quem sabe eu possa separar duas coisas: riqueza de soberba, e amizade fiel de bajulação barata.
Talvez, assim, eu poderei lembrar dos desertos que rodeiam os oásis e consiga fincar as estacas da humildade como bases para a minha tenda.

domingo, 15 de novembro de 2009

Isso é cagado e cuspido paisagem do interior

Um bêbado sendo insultado
Na reunião duma esquina
Só de alma masculina
Dizendo-lhe que tá cagado.
Um terço todo rezado
Na missa do agricultor
Gente simples no fervor
Pela chuva agradecido
ISSO É CAGADO E CUSPIDO
PAISAGEM DO INTERIOR

Um jumento amarrado
Debaixo duma mangueira
Sem vergonha e sem besteira
Ficando todo ouriçado.
Com olhar arregalado
Moça véia e sem pudor
Passando grita de dor
Por aquilo tudo estruído
ISSO É CAGADO E CUSPIDO
PAISAGEM DO INTERIOR.

Em homenagem ao grande nordestino e poeta,ator e compositor, matuto de primeira linhagem, Jessier Quirino, que está com livro e cd novos na praça.

domingo, 8 de novembro de 2009

Se eu pudesse encontrar quem mais amei

Vi meu filho num canto desolado

Expressando no olhar enorme tristeza

Perguntei-lhe o porquê, queri'a certeza,

Do que lhe deixava assim tão acanhado.

Respondeu-me: papai, tô abalado,

Minha amada partiu, não vem mais, não!

Agarrado aqui ao meu violão

Assobio baixinho o que alto cantei

Se eu pudesse encontrar quem mais amei

Livraria da dor meu coração.


Parte do poema cujo título segue acima.

Jesus de Miúdo.

(Março de 2008)

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Viagem ao nada

Eu viajo sem saber direito para aonde vou
Me afasto de mim e de meus sentimentos
Quero a solidão, estática sem impedimentos
Para entender, por fim, quem realmente sou.
Ultrapasso as barreiras de onde eu estou
Indo além de um lugar que eu não sei ao certo
Se é paraíso, inferno, jardim de flores, ou deserto
Augurando descobrir, sozinho, o que me fará feliz
E o meu espírito, tadinho, chega e me diz:
- Se afaste de tudo, mas fique aqui por perto.
Eu viajo sem saber direito, mas quero o céu aberto
Com estrelas que iluminem o ir a esse meu exílio
Servindo de guias nessa busca por novo domicílio
Onde a minha alma descansará com amor, decerto
E o meu eu seja por fim, por mim, assim, descoberto
Quero um lugar onde eu não tenha mais dificuldade
De expressar-me, ser compreendido, em minha castidade
Quero gritar coisas que jamais gritei
Amar, viver, sem as culpas às quais sempre me dei
E por fim gargalhar alto, louco, de tal liberdade.
E se o meu espírito, tadinho, pedir por caridade
Que eu retorne aos lugares do passado ido
Que eu, humilde, saiba e tenha compreendido
Que o grande monstro nascido da verdade
Nessa tentativa de, de mim mesmo ter fugido
Seja a descoberta que o sofrimento gera a saudade.
Então, ao meu espírito falarei com desenvoltura
Se acalme, seja plácido, seja espírito apenas
Pois o meu eu, mesmo longe, vive hoje lindas cenas
E perdeu com a liberdade, o dom da amargura.


Jesus de Miúdo.
Set/09.

Rio e mar. Mar e rio...

Sei que ando meio relapso com esse espaço, mas prometo que vou atualizá-lo com maior frequência. Segue algo já publicado no www.acaridomeuamor.nafoto.net

(Escrito no sábado 24 de outubro, à noite, em homenagem à Professora Ana Lúcia Sampaio)

Hoje à tarde tomei rumos há muito não procurados. Confesso que saí de casa meio sem ermo, andando para ficar só. Desci pela rua principal retribuindo o carinho das pessoas que me cumprimentavam com palavras rápidas ou, simplesmente, com gestos em acenos de cabeça ou de mãos. Alguns polegares para cima, outras vezes dois dedos em foram de “V”.
Quando alguém tentou me acompanhar e puxar conversa, não fui grosso. Mas procurei ir por onde ele não ia, seguindo meu desejado passeio solitário, sentindo o calor de trinta e seis graus, o sol queimando meu rosto, o vento quente soprando e assanhando meus cabelos... literalmente sem lenço e sem documento algum.
De repente estava sobre a ponte que separa nossa pequena cidade, Norte numa cabeceira, Sul na outra, Rio Acauã passando por baixo dos meus pés firmes sobre o concreto da construção há vinte e seis anos inaugurada.
Desci pela cabeceira sul e me vi sobre a areia fina da margem do dito rio. Tirei as sandálias, arregacei as pernas da calça jean’s, desbotada pelos anos, tecido macio, fino por tantas lavagens sofridas, pondo-as um pouco abaixo dos joelhos. Caminhei por aquele ponto onde a água beija de leve a areia, mal cobrindo meu pé direito, mais na areia que na água, entretanto engolindo meu pé esquerdo sempre que esse tocava o chão. Caminhei ao contrário das águas.
Fui sentar-me numa pedra, à sombra de uma Ingazeira, a mesma pedra de onde, quando ainda um menino teimoso e desobediente, às vezes, não considerando as advertências maternas, dela me atirava num mergulho para sair lá embaixo, correnteza me levando como um peixe que não tem piracema para motivá-lo em lutar contra o fluxo da enchente.
Sentado ali me lembrei de tantas coisas passadas... e os anos foram sendo exibidos na tela das minhas lembranças, retornando cenas em memórias que se eu pudesse reviveria todos os dias. De repente, não tinha mais do que me lembrar. Cheguei ao hoje.
Olhei rio acima, até onde a minha vista podia alcançar. Rio torto, pedras em seu caminho, contornadas sem nenhuma força. Tantas pedras... vencidas pelo rio tão maravilhosamente caudaloso.
Lá longe a serra ainda se veste de mata verde pelas chuvas que esse ano foram benfazejas. Percebi que tudo ainda está verde. Tudo verde... que verde! Que serra! Grande, majestosa! Nem por isso venceu a teimosia das águas e, em certo ponto, se fez garganta para que o rio pudesse passar, se fez espécie de cânion para a passagem das águas.
“Rio torto”, pensei. Como são todos os rios.
Deitei-me na pedra, fechei meus olhos. Lá às minhas costas o sol começava a baixar, perdendo a força, o brilho se tornando avermelhado, já não refletido em nenhum ponto nas águas do rio. Não daquele lugar em que eu estava.
Confesso que certas glândulas me turvariam os olhos, se abertos estivessem, quando senti rolarem duas aguinhas impertinentes e que logo viraram quatro. Se mais tempo ali permanecesse, tenho certeza, o rio aumentaria um pouquinho em seu volume.
Me pus de pé sobre a pedra. Tirei minha camiseta, joguei-a de qualquer jeito sobre as sandálias, mirei as águas do velho Acauã, juntei meus pés, tomei fôlego e pulei.
Após o mergulho, me deixei levar um pouco pela correnteza para, só depois, procurar a margem de terra firme. Saí alguns metros à frente. Por um momento me vi menino novamente, não fosse pela calça jean’s substituindo o calçãozinho de tecido barato que eu usava quando mais novo.
Novamente sobre a pedra, percebi a água que escorria de mim, lambia a rocha e se juntava ás outras águas rio abaixo, levando por certo algum pingo salgado que rolara da minha face.
“Esse rio vai dar no mar”, pensei. Como vão todos os rios. E aí, lá no mar transformar-se-á em nuvem novamente, nuvem em chuva, chuva em água, água na terra, da terra para o rio e do rio para o mar! Rio e mar. Mar humilde, vivendo abaixo do rio apenas para recebê-lo. Mar. Rio. Rio e mar... um ciclo perfeito e tudo tem o seu recomeço. A ida, a volta, para a ida, à volta, a ida...
Confesso que eu agora creio em recomeço. Há, sim, muitos rios e vários mares, alguns oceanos; todos feitos rios, todos feitos mares. Porém, hoje descobri que é possível recomeçar.
Sempre é!
E a citação que hoje me inspira é: “Todo caminho tem... tem ida e volta”.

domingo, 17 de maio de 2009

Pôrra-Louca

Falar com os olhos
Morder com as mãos
Abraçar com a boca...
Isso não é paixão?

- Que merda é essa? - perguntou o gari que passava varrendo a rua, todos os dias, assustado com o que acabara de ouvir na voz feminina do jovem alto.

sexta-feira, 15 de maio de 2009

Por tudo que for - plágio em prosa de Lobão

... e depois a luz da rua que adentrava meu quarto pela janela de vidro se apagou. Já não adiantava ficar de olhos abertos ou fechados. Tanto fazia. Mas nas imagens que vinham como que pelos olhos, fechados, o dia estava claro e você estava segurando a minha mão. Mas de repente uma nuvem preta tomou conta da mente, você se foi. Sem você é tão ruim. O prazer não tem satisfação, não há nada além do nada. Não faz sentido, sem você... E saber que quem errou fui eu, me tirava a respiração. Fui dormir fingindo que a solidão era a melhor companheira. Ah! Doce ilusão pensar em você batendo a porta e chamando meu nome. Só me restava tentar dormir. Dormir para tentar sonhar com você segurando a minha mão, caminhando junto a mim, num dia claro. Não dava mais. Ali naquele instante, não dava mais. Sentia que você havia ido para sempre e eu fui dormir tentando acreditar que a solidão era, de fato, a minha melhor companheira. Olhei pela janela do quarto, sem saber quanto tempo já passara. O dia estava claro, mas você não caminhava ao meu lado, segurando a minha mão. Fechei os olhos novamente e você nem apareceu mais. Sem você é tão ruim.

quinta-feira, 14 de maio de 2009

Silêncio

... então, ela olhando de lado por sobre o ombro esquerdo, avistando o vale que se perdia na vista, inquietando-se por um momento por tudo que vivia ali, perguntou-lhe de súbito:
- E o silêncio, para você, o que é?
Ele olhou para ela, percebendo que seus olhos estavam longe, mas sua mente esperava por uma resposta. Pegou um pequeno galho seco e levou à boca. Mordeu um pouco, sentiu um gosto amargo, apertou os olhos como querendo avistar mais longe do que o possível e por fim respondeu olhando o mesmo vale aberto aos olhos de ambos:
- É a mais fria das armas que matam e o mais bruto dos descasos.
Calaram-se os dois.

terça-feira, 21 de abril de 2009

Ética

Nos dias atuais e no presente contexto das relações humanas, e empresariais, a ética tornou-se um tema complexo e especial em virtude dos inúmeros acontecimentos que nos rodeiam diariamente, tanto no campo político quanto no social e empresarial.
Entretanto, um outro debate também chamará a atenção para uma discussão sobre a conduta humana, ou seja, em sociedades pluralistas como as atuais, onde o capitalismo e a democracia há muito se fortaleceram e se expandiram pelo mundo, estando para muitos a corrupção como o maior obstáculo para a felicidade racional das pessoas, sendo, assim, comum que se encontrem pontos de dissenso acerca de questões éticas.
Não há como negar que Agostinho, o de Hipona, foi o maior filósofo da época patrística, tempo em que as evidências e compreensão das coisas estavam intrinsecamente ligadas às teorias dos Santos Padres, além do mais importante e influente teólogo da Igreja em geral.
Portanto, é imprescindível uma análise sobre os pontos de vistas e opiniões do referido autor.
No Livre Arbítrio, obra que Agostinho escreveu entre 388 e 395 d.C e, na qual, Agostinho contraria a ideia maniqueísta com seus dois princípios, o princípio do Bem e do Mal, e segundo a qual o Universo foi criado e é dominado por dois princípios antagônicos e irredutíveis: Deus ou o bem absoluto, e o mal absoluto ou o Diabo; defendendo que deste modo o homem não é livre nem responsável pelo mal que faz. Agostinho procura demonstrar que a nossa conduta, o poder de agir como queremos, é uma decisão soberana, um arbítrio. A ética agostiniana caracteriza-se na obra pela formulação de uma explicação de como pode existir o mal se tudo vem de Deus que é bom.
Em seguida, na obra Confissões, escrita no ano 400 d.C, Agostinho esboça uma ética harmonizada com os preceitos morais cristãos. Entretanto, se para os gregos o homem bom é aquele que sabe e conhece, para Agostinho o homem bom é aquele que ama aquilo que deve amar.
Santo Agostinho torna-se essencial para uma discussão no que tange um entendimento da ética cristã, com tais obras e pensamentos. E, porquê não dizer da ética geral em sua gênese, uma vez que todo pensamento humano no que qualificamos como moral, ou seja, das coisas certas e erradas, advêm das crenças e dos mitos religiosos.
Independente da forma como o homem atual vê a ética e procura respeitá-la, o que temos observado é uma carência dos melhores valores por parte daqueles que deveriam mais nos exemplificar com a sua moral.
Fico demasiadamente apreensivo quando noto que, não obstante a vergonha nacional por atos de alguns dos seus líderes mais conhecidos, esses homens se reúnem e, numa falta total de moral, elevam à normalidade atos que fariam qualquer ser com consciência moral e cívica elevados irem de encontro ao suicídio. Isso noutras culturas, claro! Porque na nossa atual, tudo tem sido simplesmente normal.
Não quero com essas palavras ditas acima, e com as que virão a seguir, me dizer um homem ético em tudo, tampouco sem defeitos. Isso seria pura utopia da minha parte, simplesmente por eu acreditar não haver exemplar na espécie humana com tal conceito. Mas, o fato do menino Fábio Faria ter devolvido o dinheiro das passagens, para mim, não atenua em nada a vergonhosa forma com que agiu e agem quase todos daquela "casa". Se os envolvidos quando pagarem o que de fato devem à nação - e aqui não falo apenas no valor financeiro, e muito mais dando ênfase ao valor moral - e se pagarem, forem tratados como "arrependidos e perdoados" nesse caso, os fatos abrirão em nossa sociedade um prescedente perigoso e altamente nocivo aos modernos meios de viver em coletividade. Por tal exemplo vindo do congresso, eu poderei a partir de agora entrar numa loja, por exemplo, e sair sem pagar com o que eu quiser. Se for pego e acusado de desvirtuado ou de ladrão, bastará para mim ressarcir o valor à loja, e me dizer arrependido. Caso não seja pego, ficarei com o bem traquilamente, sem maiores remorsos já que tudo é normal.
Antes de utilizar-me do novo direito aberto pelos melhores membros da nossa sociedade, prefiro apegar-me hoje às palavras de Tomás de Aquino: "A verdade é definida como a conformidade da coisa com a inteligência”.
Pensem nisso.

sexta-feira, 10 de abril de 2009

Partida

Chorando se ia,
Chorando voltou.
Chorando sofria,
Quando me deixou.

sexta-feira, 3 de abril de 2009

Estorinha boa de contar da porra, hômi!

Ele acorda, vira de lado na cama e se olha no espelho. Assim descobre que acordou vesgo. Uma coisa estranha em sua cabeça. Não consegue lembrar-se direito quem é, onde estar, com quem vive...
Com dificuldades ele consegue ir até o final da cama, onde uma calça em brim, quadriculada, está abandonada. Ele procura freneticamente nos bolsos, para ver sua foto na identidade. Quer ver se na foto é realmente daquele jeito, mas acha apenas um passaporte e, assim, descobre que é argentino!
"Não pode ser, meu Deus!", ele pensa. Com dificuldades ele senta na cama, tenta levantar-se, mas algo não o deixa. Ele olha de lado, procura algo em quê se apoiar para levantar-se. Enxerga numa distância pequena, no mesmo quarto uma cadeira. Mas não é possível!! É uma cadeira de rodas, o que significa que, além de ser vesgo e argentino, ele é também deficiente físico!
"É impossível", diz para si, "que eu seja vesgo, argentino e deficiente físico".
- Amôôôôr!, grita uma voz atrás dele. Mas é uma voz masculina, ele apura os ouvidos e um segundo chamado é escutado. É o seu namorado... Cacete! Ele, enfim, descobre que é também viado!
- Foi você quem pegou a minha seringa? - pergunta a voz.
"Ó Deus! Vesgo, argentino, deficiente físico, viado, viciado e soropositivo?! Não pode ser", ele se desespera calado. Mas logo que a realidade é tirada à prova e ele percebe que aquilo não é um sonho, ele começa a gritar, a chorar, a arrancar os cabelos e...
- Nãooo! - ele grita apavorado. - Sô-Sou ca-ca-careca!
Toca o telefone. É seu irmão, que diz:
- Desde quando mamãe e papai morreram, você só faz se entupir de drogas, vagabundeando o dia inteiro! Procura um emprego, arranja algum trabalho! - e desliga sem dar tempo dele perguntar-lhe alguma coisa. Queria saber pelo menos quando os pais morreram, se ele havia ido ao enterro. Mas outro sentimento de azar se apodera dele. "Que merda", ele pensa, pois acaba de descobrir que também está desempregado!
Se pelo menos o irmão tivesse lhe dado tempo de uma explicação, ele tentaria se justificar dizendo que é difícil encontrar trabalho quando se é vesgo, argentino, deficiente físico, viado, viciado, soropositivo, careca e órfão. Ele liga de volta e o irmão atende. Quando ele tenta falar, não consegue, porque... Porque é gago!
- Esqueci de lhe dizer. Não poderei ficar com vocês dois aqui, quando demolirem a sua casa hoje à tarde - fala o irmão do outro lado e desliga sem esperar palavra alguma dele ser completada.
- Mê-mê-meu ir-ir-irmão, espé-pé-pé-pere aí - ele pede quase gritando. Em vão, o irmão desliga.
Transtornado, joga o telefone num canto da parede, e com muito esforço consegue subir na cadeira de rodas, não sem antes perceber que não possui a mão direita. Nem notara quando procurava por um documento, minutos antes. Já com lágrimas nos olhos, vai até a janela olhar a paisagem, esperando ver o mar ou um belo bosque.
Milhões de barracos ao seu redor. Ele sente uma punhalada no marca-passo: além de vesgo, argentino, deficiente físico, viado, viciado, soropositivo, careca, órfão, gago, maneta e cardíaco, é também favelado.
Ele começa a passar mal e sentir um calafrio. Com esforço dirije-se ao guarda-roupa para pegar um agasalho, e para sua surpresa, quando abre a gaveta encontra uma camisa do... Flamengo.
"Aí já é sacanagem", ele pensa. "Que merda de vida é essa minha?", ele se pergunta. Entra em surto, pois além de vesgo, argentino, deficiente físico, viado,viciado, soropositivo, careca, órfão, gago, maneta, cardíaco, é também favelado e torcedor do Flamengo. Começa a pensar como poderia cometer o suicídio. Um tiro no ouvido? Não possui armas, se atiraria da janela? Ela possui uma proteção de ferro. Veneno! Quando ele começa a raciocinar qual o mais poderoso... Puta que ô pariu! Nesse momento, volta o seu namorado e diz:
- Amôôôr, vamos! Se não chegaremos atrasados para comprarmos as entradas do Show do Callypso. Afinal, adoramos os gritinhos da Joelma, não é mesmo?
NÃÃÃÃÃÃÃOOOOOOOOOO!
Acordou suado.

Mosaico

Eu não vou correr pra perto de mim
Nem vou juntar os passos que eu não dei
Nego-me a cantar aquilo que jamais li
E rio do riso rídiculo que não espalhei
Mas juro que por algo, ou nada, lutarei
Que morrerei feito o herói que não vivi
E, enfim, para o tudo dos dias nada serei
Só assim voltarei a viver longe de mim.
O dia da gente é este no qual estamos. Os outros para trás são só lembranças e o futuro é tão incerto quanto o lugar onde a onda quebrará.

Jesus de Miúdo

sábado, 28 de março de 2009

Fortes?


Vi robustas árvores envergadas pelo vento
Lutando contra a morte, apegadas à terra
Soltando suas folhas sem, talvez, contentamento
Deixando escapar, assim, a beleza que encerra.
Vi o vento que soprava com intrepidez
Sem poder ser detido em suas livres veredas
Atentando contra uma árvore pra tirá-la de vez,
Do solo, em silvos longos entre as alamedas.
Um homem que passava segurou seu chapéu
Olhou para a árvore e se compadeceu
Pois compreendeu que debaixo do céu
Só não se curva ao mais forte aquele que morreu.
Mas até o vento que ninguém sabe de onde vem
Embora forte e ágil sem ter que dar satisfação
Chega uma hora que se cansa também
E deixa tudo que levantou cair de novo ao chão.


Jesus de Miúdo
5/10/2005

sexta-feira, 27 de março de 2009

Descobertas

Tudo quanto eu sei
É que não preciso mover mundos
Pra saber que nada sei.
Tudo quanto eu tenho
São pensamentos fecundos
Pra entender que nada tenho.
Tudo quanto eu sou
Não dura míseros segundos
Pra perceber que nada sou.
O que sou?
O que tenho?
O que sei?
Nada!
Jesus de Miúdo
Janeiro/2007

Ciranda


Viro ninguém.
Perto de ti
Eu sou alguém
Longe de ti
Não me convêm
Sobre ti
O riso vem
Sob ti
Eu passo bem
Falando a ti
Digo amém
Ouvindo a ti.


Jesus de Miúdo
Setembro/2007

domingo, 22 de março de 2009

Morrer em ti


Revestido de receios,
Vi meu mar nos seios teus.
E todos os meus anseios,
Todos os desejos meus,
Num mergulho se afogaram.

Vi meu céu em tua boca
Numa vontade louca
Desejei morrer em ti.


Morri.

Jesus de Miúdo.

Maria da Penha nele, e uma surra nela!



A coisa foi a seguinte: uma amiga minha, a quem só conheço virtualmente pela Internet, levou umas porradas do homem com quem vive. Aí, ligou para uma amiga e pediu socorro. A amiga lhe socorreu, mas botou a boca no mundo. Quando o cabra ia sofrer as penas da lei, a espancada (teve até hemorragia interna) desmentiu tudo, exaltou as qualidades do marido, disse que tudo era inveja da amiga, pois tinha sofrido um tombo no banheiro. Aí, eu não me aguentei e mandei por e-mail o cordel de presente pra ela:


Aqui na minha terrinha
Também tem um tipo ruim
De mulher, que faz assim:
Apanha e fica quietinha.
Mas se faz de coitadinha
Diz que foi escorregão
Que sofreu em seu sabão
Quando saía apressada
Do banheiro, ensaboada,
Por não prestar atenção.

Agora é essa a questão:
Apanha ou é desatenta?
Ela diz que o povo inventa
Qu’ela leva moxicão
Mas acho que é a mão
Do marido cachaceiro
Profissional uisqueiro,
Que lhe faz só de pamonha
E ela, muito sem vergonha,
Diz: - É bom, meu companheiro.

O cabra é um loroteiro
Metido a arroxado
Mas quando ele é provado
Por um homem verdadeiro
Falam que corre primeiro
Pra descontar na inocente
Que embora inteligente
Não vê qu’ele é um imbecil
E toda quebrada e servil,
Diz: - O meu homem é decente.

Quando a coisa fica quente
Ela liga pr’uma amiga
É sempre a mesma cantiga
-
Eu sofri um acidente.
Mas por inveja, não invente
De pensar que apanhei.
Eu apenas escorreguei
Quando saía do banheiro,
Caí com meu corpo inteiro
E a cabeça quebrei
.
Aí, o marido dela me respondeu dizendo que eu era um louco porque não sabia com quem estava mexendo, que ele tem muito dinheiro, era de família rica e tradicional de certa região do país, que ia me processar e mais uma ruma de bosta. Mandei-lhe, então o seguinte cordel:
Na minha terra querida
Temos de tudo um pouco
Podem até me chamar: “louco”
Mas não tenho outra saída.
Aqui a gente duvida
De metido a valentão
Mas que só levanta a mão
Pra bater no feminino
Não passa de um cretino
Sem alma e sem coração.

De que adianta o sujeito
Ter “nome” e tradição
E faltar-lhe a educação,
Ser sem caráter e respeito?
Falo logo em meu conceito:
O cabra não é do bem.”
E não importa quant'ele tem
Pode ser um mar de dinheiro
Pode até ser um “Carneiro”,
Mas pra mim, não é ninguém.

Não vejo porque senão
Nessa linhas que hoje leio
Nem me traz um aperreio
Entrar em tal discussão
Eu falo de coração
E não arredo o pé
Aqui quem bate em mulher
Não é homem, é um nojento !
Não é sequer um jumento
Pois não rincha, só faz béééééééééééééé !